Esta casa foi-me oferecida, em tempos, pela minha namorada como prenda de Natal. Cresceu, sobreviveu e continua a resistir…
É apenas mais um blog que fala de coisas, coisas que, por vezes, estão ligadas ao dia-a-dia de duas mulheres que vivem juntas e acreditam que têm uma vida exactamente igual à da maioria dos casais, apenas com a diferença de lá por casa o tampo da sanita nunca ficar para cima :P


quinta-feira, 18 de setembro de 2008

3.º dto. vs 4.º dto.

No 4.º dto. do meu prédio vive um casal de velhotes. São casados e partilham as mazelas da vida provocadas pela idade avançada. No 3.º dto. vivemos nós, um casal de duas mulheres, que sonha partilhar as mazelas de uma vida longa em conjunto.

Quando nos cruzamos, somos sempre saudadas com um alegre bom dia e as perguntas da praxe de como têm passado. A nossa convivência fica por aqui.

Ora, pergunto eu:

Qual seria a diferença nesta convivência caso nós, o casal do 3.º dto., também pudéssemos partilhar um casamento?

Para os meus vizinhos, nenhuma, continuaríamos a conviver como sempre. Agora, para nós faria toda a diferença!

Terminaria com uma descriminação que me impede de usufruir dos mesmos direitos que os meus vizinhos do 4.º dto.. Garantiria que a pessoa que partilha comigo a vida há 18 anos pudesse ter direito, em termos de herança, ao que construiu comigo, permitiria que pudéssemos comprar uma casa como casal e não em “sociedade” (como temos), permitiria que pudéssemos prestar assistência em caso de doença…

O poder político vai adiando a aprovação de uma lei que me/nos garanta o acesso ao casamento, usando a desculpa de que é necessário o assunto ser devidamente debatido pela sociedade para avaliar se deve ser aprovado.

Mas, afinal, que diferença faz aos meus vizinhos do 4.º dto. (sociedade) se eu sou casada com uma mulher?

22 comentários:

Maria Papoila disse...

Por este andar ainda ficas primeiro sem os vizinhos do 4º Dto.

Dantins disse...

maria papoila
Nem imaginas a gargalhada que provocaste cá em casa. Por acaso a velhota anda com uma tosse que me anda a preocupar :P

Gayja disse...

Ora bolas! É que é mesmo isso! Que diferença faz a todos os outros? Eu não quero ter de ficar 18 anos à espera...

AlmaAzul disse...

Eu teria mudado de país... Eu penso seriamente em mudar de país... Eu já mudei varias vezes de país e penso repeti-lo... Este não me serve!
Os valores deste país não são os meus...
Mas antes disso vou votar em branco!

Caramela disse...

Não faz diferença nenhuma. Não mudam por isso, continuam a ser as vizinhas do 3º dto. Mas como esta questão anda à anos para trás e para a frente e nada se muda, não sei... Deve haver alguma deficit cognitivo bem grande junto ao poder politico ou então uma alergia a alguma coisa que não consigo entender bem o quê ou algo assim... Mas acho que a maria papoila tem razão, primeiro ficas sem os vizinhos do 4º dto infelizmente.

antónio fogaça disse...

pelo menos, já se começou a falar nisso, dentro do parlamento, com alguma seriedade, o q é um sinal positivo. bem sei q já devia estar resolvido, mas havemos de lá chegar. o simples facto de estar, neste momento, a ser um tema q está a dar alguma polémica dentro do próprio PS já é um começo.

só espero q n se lembrem de fazer um referendo acerca disto. se é isso q querem dizer por "devidamente debatido pela sociedade"...

Pugo disse...

Pois, e penso que a resposta está mesmo na tua última afirmação: que diferença lhes faz????

Exactamente por não lhes fazer diferença nenhuma é que existe o "medo" de arricar neste País de ignorantes!!!!!

Costuma-se dizer que quando nos afecta mais directamente e quando com isso sofremos é que mais rapidamente procuramos uma solução para as coisas. Mas, infelizmente (quer queiramos quer não) somos uma minoria neste País e à maioria das pessoas somos indiferentes (ou diferentes?) ... e assim ficaremos mais uns tempos!!!!

Enquanto estivermos sujeitos a que decidam sempre por nós acreditem que isto não irá para a frente!!!!!

Com uma simples aprovação, creio que o País evoluiria muito mais. Deixava-se de falar no assunto pois esse passaria a ser normal e creio que aos poucos a aceitação dentro desta sociedade seria mais facilitada....

Entretanto temos de esperar....

:S

Poppie disse...

Só a mente de gente mesquinha e com falta de amor-próprio pode pensar que a vida privada dos outros os pode afectar de alguma forma!

Dantins disse...

O que irrita mesmo, é que há falta de coragem neste país e vai-se adiando uma solução.
Não há nada a discutir, este é um direito que eu devo de ter como os restantes, trata-se da minha vida privada.
Costumo dar o exemplo de Espanha, país não menos conservador que o nosso, aqui houve a coragem de aprovar a lei atribuindo a plenitude de direitos, incluíndo o da adopção, e não faltaram vozes a constestarem tal decisão.
Falta coragem e determinação aos políticos portugueses.

AD disse...

É, nós somos as vizinhas do 3.º dto., aquelas a quem cumprimentam e dizem “como estão as meninas? nunca as vejo!” ou aquelas a cuja porta a vizinha vem bater quando é assaltada e temos que ir com ela para a esquadra ou, ainda, aquelas a quem os vizinhos vêm pedir ajuda pq estão a fazer obras não autorizadas nas lojas do prédio…

Se fossemos casadas oficialmente estes comportamentos dos nossos vizinhos seriam alterados?

No próximo dia 10 de Outubro, o casamento entre pessoas do mesmo sexo vai ser levado pelo BE e PEV à discussão no Parlamento. O PS quer aplicar a disciplina de voto aos seus deputados, sob o pretexto de não estar no programa do governo e de ser uma matéria que carece de ser debatida na próxima legislatura, o que está a provocar uma pequena rebelião no seio do grupo parlamentar socialista. Ou seja, a direcção do PS quer obrigar os deputados socialistas a votar “não”, mas na próxima legislatura deverão votar “sim”, ainda que a matéria a legislar seja a mesma.

Enfim, a hipocrisia política no seu melhor.

Epá, é que não consigo mesmo compreender o porquê de duas pessoas do mesmo sexo não puderem casar-se!!!

Como diz a Pugo, este é mesmo um país de ignorantes!!!

Fogaça, não posso deixar de discordar contigo por considerares positivo ter-se começado a falar no assunto. É que estamos no final da primeira década do séc. XXI e ainda se está a ponderar discutir os casamentos homossexuais! Por favor, poupem-me!

kris disse...

Ainda vivemos num país medíocre, onde as mentalidades são fechadas...

Sonho um dia poder usufruir dos mesmos direitos que outro casal qualquer também tem.

Não somos mais nem menos que os heteros....somos iguais, e é bom que Portugal comece a entender isso.

Já houve uma altura em que as mulheres nem votar podiam....tudo muda, tudo há-de mudar...temos de ter esperança...

beijo...

The Swedish Chef disse...

o meu vizinho pergunta-me 'e então a sua senhora?'
outro diz ' voces têm a caixa de ferramentas mais completa que a minha' e para assegurar a outra, temos um seguro de vida.
e é por isso que temos de 'dar a cara' e darmo-nos ao respeito. acho que a comunidade lgbt nao se dá ao respeito.... mas hoje estou de mau humor...

g disse...

Está muito bem observado, não lhes faz diferença nennhuma mas se perguntares eles importam-se!|

antónio fogaça disse...

querida AD, ou não percebeste o q escrevi, ou n me expliquei o suficiente.

é ÓBVIO q este é um assunto q já devia estar resolvido há muito tempo. não nos podemos esquecer, no entanto, q portugal tem um défice de consciência democrática e social de cerca de 30/40 anos. podes-me dizer q espanha tb. ok, mas o zapatero é mais à frente q o sócrates.

por isso, mantenho: considero positivo a discussão estar lançada. antes isso, q n haver sequer discussão. considero positivo este assunto estar a causar polémica dentro do ps, que, quer gostemso ou n, é o único partido (pelo peso parlamentar q tem) de conseguir levar por diante uma reforma neste sentido.
foi este governo q alterou a lei do aborto, é este governo q quer alterar a lei do divórcio.

e antes q comecem a mandar bocas: n, n sou do ps!

n conheço as propostas do BE e do PEV, pelo q n me vou pronunciar.

hipocrisia? é, sim senhor. isto de se votar contra uma proposta de outro partido e dps votar a favor de uma quase igual do próprio partido é a politica no seu pior.

mas continuo a dizer: prefiro q haja discussão, a n haver nada e as coisas se manterem iguais.

e se vocês querem realmente mudar as coisas, façam tb por isso. a sociedade civil portuguesa é um bocado amorfa, mas lancem o debate. n só p dentro, mas tb lá p fora. escrevam p os jornais. façam folhetos e ponham-nos a circular nas ruas.

Fernanda disse...

Sabes,...e já dizia o ALBERT ENESTEIN,...que é mais fácil mudar uma ideia que um preconceito.
Claro,...que não faz nem nunca fará diferença NENHUMA,...a vida continua e continuará exactamente na mesma,...para os casados e pseudo casados..:))

Dantins,...o problema não está na IDEIA.
Acho até, que mais dia menos dia, esse direito civiL a que todos têm ou deveriam ter direito para efeitos legais e patrimoniais,... mais dia menos dia, será aprovado e essa discriminação acabar.
O problema está,... exactamente no PRECONCEITO.
Enquanto esse não acabar, enquanto não se encarar a diferença com INDIFERENÇA,...esse estigma e essa discriminação, existirá sempre.

Mas isso, também, é coisa que não importa,...18 anos é muito tempo, 18 anos, é realmente, o que faz a diferença entre a leviandade e a certeza daquilo que se quer construir, com uma única pessoa.
E aí,...digo-te,... não há preconceito, nem leis, nem discriminação,...que atingam a dignidade, a honra e o respeito de cada um.
Assim vale a pena..:))

Acredito que sim, que vai ser aprovada a lei.

Bom fim de semana

uma brasileira disse...

Aqui no Brasil, a situação é semelhante. Observo alguns avanços. Já é possível o companheiro ou companheira gay receber a pensão do governo em caso de falecimento (mas é preciso entrar na justiça), alguns planos de saúde (o da minha empresa, por exemplo) aceitam parceiros gays como dependentes, mas ainda são migalhas perto do que de fato necessitamos. Estamos em fase de campanha política e alguns candidatos incluíram o casamento entre gays em suas plataformas.

Verónica disse...

dantis,acho que o teu texto tem toda a pertinência.Também penso que problema está no PRECONCEITO.
como diz a fernanda e tem toda a razão.
Acho incrível que no sec 21 ainda se receie falar das coisas pelos nomes.Que ainda se ande às voltas como baratas tontas porque os homossexuais desejam casar e ter os mesmos direitos que todos os outros casais.
Também é verdade que os homo precisam reivindicar mais ,de forma séria.Aquelas paradas que mais se assemelham a palhaçadas só os descredibiliza.
Outra coisa,atendendo ao cada vez mais crescente número de divórcios realmente não sei se vale a pena pensar em casamento.
De qualquer forma o casamento é um direito de qualquer cidadão independentemente de todo o resto.
Outra coisa,apesar de vocês não poderem usufrurir dos direitos dos hetero,têm o peso de uma relação de 18 anos. Isso é uma vida! E ao que tudo indica são felizes.Pouca gente nos dias que correm podem se gabar de um feito desses!
Nada nem ninguém apaga isso que vocês as duas construiram.
Parabéns

Anónimo disse...

E passariam a pagar os esgotos juntas e não em contas separadas ahaahahha.

pronto, pronto, sou eu -.-'

Dantins disse...

Obrigada pelos vossos contributos, na maioria concordo com tudo o que por aqui foi dito.

A questão de a comunidade LGBT não se dar ao respeito, discordo. Poderão existir alguns casos menos positivos, mas na generalidade não vejo qualquer diferença relativamente aos hetero. Quanto aos desfiles, se não mostram uma imagem mais positiva a culpa é exclusivamente nossa, cabe-nos a nós participarmos e mostrarmos que somos muitos e que apenas queremos exigir os nossos direitos. Participei este ano no desfile em Lisboa e acredito que passou uma imagem positiva à sociedade, pena não sermos mais.

Temos que agir da forma mais natural possível e viver como não diferentes. Eu e a AD vivemos às claras, somos encaradas como casal no trabalho, nos amigos, nos vizinhos e nunca sofremos qualquer tipo de discriminação.

Eu sei que nada vai alterar a minha relação de 18 anos por me puder casar. Mas trata-se de um direito que eu exijo, até posso nunca me querer casar, mas quero ter acesso a puder fazê-lo se assim o entender.

Quanto à piada dos esgotos, eu e a AD temos uma casa em conjunto, mas a compra é tipo uma “sociedade”, quando os esgotos vêm para pagar, vêm em contas separadas (50% para cada). Nós estamos sempre a gozar o que acontece se uma deixar de pagar, será que tapam metade do esgoto?

Hipi disse...

Não tenho nada de novo a dizer e a acrescentar ao que foi aqui dito. Quis comentar só para deixar o registo de que passei por aqui e sou só mais uma a concordar com o que aqui se reivindica. Bjos

fiel.jardineira disse...

Humm....eu entendo ambos os lados... :/ mas tem a ver com a minha historia pessoal...mas nao somos todos pessoas afinal?... Bjs

AD disse...

Fogaça, percebo que para ti seja positivo ser lançada a discussão no Parlamento e, consequentemente na sociedade civil, da questão dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo, dado não ser um assunto que te afecta directamente. Agora, tb tens de compreender que para nós essa é uma questão que nem se deveria colocar. Se duas pessoas se amam pq não se podem casar e adquirir os direitos daí inerentes?

Se analisarmos a situação, neste país os homossexuais são cidadãos de segunda, cujos direitos lhes são negados... e estou a referir-me a direitos simples. O que altera na sociedade o facto de eu e a Dantins pudermos casar? Nada. O nosso comportamento diário não se vai alterar, apenas teremos salvaguardadas certas situações, como seja o simples facto de prestarmos assistência em caso de doença.

Sim, Portugal ainda tem uma democracia jovem e a sociedade civil um enorme défice democrático, não tendo uma participação activa e deixando para o poder político todas as decisões (basta ver a escassa participação nos referendos). Mas, esta não pode ser uma desculpa eternamente usada para adiar a tomada de decisão política sobre questões sociais. A nossa classe política tem de, uma vez por todas, “crescer” e assumir que há questões menos pacíficas do que outras e que todos os cidadãos têm de ver os seus direitos garantidos.